“Emocionada, a tia Mitzi nos desculpou e aproveitou para fazer da situação o gancho para um exercício: pediu que desenhássemos o perdão. O perdão!
Não saberia desenhar o perdão hoje, imagine quando eu tinha oito anos!
Fiz o que pude.
- Um furacão, Maria de Lourdes! Que visão interessante do perdão.... – ela disse, redondamente enganada, enquanto analisava o meu trabalho.
- Não é um furacão, é uma flor carnívora gigante comento a batata da perda da dona, que é essa senhorita no canto da página.
- Ah, ta..... – tentou disfarçar a surpresa.
- E a senhorita é você – eu disse.
- Eu sou essa senhoria? Tô boba!
- Vou explicar: a planta é a gente querendo comer sua paciência, e você é você, lutando com a planta.
- É? E por que eu estou lutando com ela?
- Porque você ama ser professora e se for engolida por alguma coisa vai ter que deixar de dar aula....A gente até pode ser uma turma agitada, como você fala, mas ninguém aqui quer tirar de você a sua profissão, que é o que você mais ama na vida.
Surpresa, ela olhou para mim e sorriu. E chorou logo em seguida.
- Ô, Malu... – foi o desenho mais lindo que uma aluna já fez para mim! – ela disse, soluçando, antes de me esmagar num abraço que deixou meio espantada ao receber.
No dia, claro, não entendi nada. Mesmo porque meu desenho estava pavoroso. Hoje, eu fico imensamente feliz e orgulhosa quando lembro que, do alto dos meus oito anos, fiz uma professora chorar, Mas não de tristeza como na aula anterior.
De alegria.”
(Página 32 – Fala sério, professor! – Thalita Rebouças)
Hoje, em mais uma viagem de Paciência para casa, tive a oportunidade de ler alguns capítulos do livro da Thalita Rebouças. Agradeço a essa escritora por estar ajudando a minha filha a sair da fase leitora de gibis para uma leitora mais experiente. Já foi o “Fala sério, mãe!” , “Viagem ao centro da terra” e agora, ela me pediu para pegar na biblioteca da escola o empréstimo do “Fala sério, professor!” Normalmente passo a viagem, quando não corrigindo provas e redações, lendo o material da pós ou ouvindo minhas músicas. Enfim, hoje, o mp4 acabou a bateria, as provas já estavam todas corrigidas, assim como as redações e eu esqueci todo material da pós em casa. Sendo assim, a leitura do livro juvenil era o que restava e fui sem nenhuma credibilidade avançando as suas páginas. Esperando no máximo, algumas risadinhas, já que a leitura é de fácil “digestão”. Gostosa e descomprometida.
Então, me deparei com essa história fragmentada que exponho logo acima. Vi-me chorando como um bebê dentro do trem. Tocou-me profundamente a história dessa professora inventada pela autora, mas que reflete tão bem a história de todos os professores. Uma mulher desprezada pela sociedade, pelas políticas públicas, pela Instituição, humilhada por seus alunos e que sente todo esse peso constante em suas pernas como uma planta carnívora que tenta devorá-la todo tempo, tentando não só contra sua vida como por sua integridade moral.
A identidade foi imediata. Talvez porque vi ali o transbordar de um balde que já tolero há meses com o descaso do governo para os profissionais de educação evidenciado nas salas de aula hiper-lotadas, no fechamento de turmas a essa altura do ano, na redução de carga horária de língua portuguesa para as turmas do ensino médio, nas políticas públicas voltadas apenas para a melhoria dos resultados nas provas estaduais e federais sem se preocupar com a melhoria da qualidade do ensino e antes, ainda na escola, hoje, esse meu balde fora enchido por uma aluna que me confessou querer da vida o casamento e um trabalho em casa de família, no máximo e, por isso, ela não se importava com a nota 0,5 que tirara na prova de Língua Portuguesa onde só continha interpretação textual.
Essa planta carnívora só aumenta de tamanho. E quer devorar não somente a batata da perna. Quer nos devorar por inteiros.
Às vezes, surge uma “Malu” como um levante de auto-estima ou simplesmente alguém, que por obra e graça divina, se solidarizou com o nosso sofrimento. Isso é bom! É sinceramente bom! Mas não ameniza a dor que a planta tem nos causado diariamente, com um verdadeiro “pede pra sair” do governo, fazendo referência a fala do personagem capitão nascimento do filme Tropa de Elite. Esse mesmo governo que é a representação máxima de todo um povo. O mesmo povo que depende de nós para a educação básica ministrada e quase nunca aproveitada. Isso é ‘pirante’! E toda essa ‘piração’ me fez debulhar em lágrimas hoje, no trem, à tarde, voltando de mais uma jornada integral em sala de aula. Era só uma leitura descomprometida.Não esperava tanto dela. E é essa a surpresa que a leitura nos proporciona. Não esperar e mesmo assim receber.
Não saberia desenhar o perdão hoje, imagine quando eu tinha oito anos!
Fiz o que pude.
- Um furacão, Maria de Lourdes! Que visão interessante do perdão.... – ela disse, redondamente enganada, enquanto analisava o meu trabalho.
- Não é um furacão, é uma flor carnívora gigante comento a batata da perda da dona, que é essa senhorita no canto da página.
- Ah, ta..... – tentou disfarçar a surpresa.
- E a senhorita é você – eu disse.
- Eu sou essa senhoria? Tô boba!
- Vou explicar: a planta é a gente querendo comer sua paciência, e você é você, lutando com a planta.
- É? E por que eu estou lutando com ela?
- Porque você ama ser professora e se for engolida por alguma coisa vai ter que deixar de dar aula....A gente até pode ser uma turma agitada, como você fala, mas ninguém aqui quer tirar de você a sua profissão, que é o que você mais ama na vida.
Surpresa, ela olhou para mim e sorriu. E chorou logo em seguida.
- Ô, Malu... – foi o desenho mais lindo que uma aluna já fez para mim! – ela disse, soluçando, antes de me esmagar num abraço que deixou meio espantada ao receber.
No dia, claro, não entendi nada. Mesmo porque meu desenho estava pavoroso. Hoje, eu fico imensamente feliz e orgulhosa quando lembro que, do alto dos meus oito anos, fiz uma professora chorar, Mas não de tristeza como na aula anterior.
De alegria.”
(Página 32 – Fala sério, professor! – Thalita Rebouças)
Hoje, em mais uma viagem de Paciência para casa, tive a oportunidade de ler alguns capítulos do livro da Thalita Rebouças. Agradeço a essa escritora por estar ajudando a minha filha a sair da fase leitora de gibis para uma leitora mais experiente. Já foi o “Fala sério, mãe!” , “Viagem ao centro da terra” e agora, ela me pediu para pegar na biblioteca da escola o empréstimo do “Fala sério, professor!” Normalmente passo a viagem, quando não corrigindo provas e redações, lendo o material da pós ou ouvindo minhas músicas. Enfim, hoje, o mp4 acabou a bateria, as provas já estavam todas corrigidas, assim como as redações e eu esqueci todo material da pós em casa. Sendo assim, a leitura do livro juvenil era o que restava e fui sem nenhuma credibilidade avançando as suas páginas. Esperando no máximo, algumas risadinhas, já que a leitura é de fácil “digestão”. Gostosa e descomprometida.
Então, me deparei com essa história fragmentada que exponho logo acima. Vi-me chorando como um bebê dentro do trem. Tocou-me profundamente a história dessa professora inventada pela autora, mas que reflete tão bem a história de todos os professores. Uma mulher desprezada pela sociedade, pelas políticas públicas, pela Instituição, humilhada por seus alunos e que sente todo esse peso constante em suas pernas como uma planta carnívora que tenta devorá-la todo tempo, tentando não só contra sua vida como por sua integridade moral.
A identidade foi imediata. Talvez porque vi ali o transbordar de um balde que já tolero há meses com o descaso do governo para os profissionais de educação evidenciado nas salas de aula hiper-lotadas, no fechamento de turmas a essa altura do ano, na redução de carga horária de língua portuguesa para as turmas do ensino médio, nas políticas públicas voltadas apenas para a melhoria dos resultados nas provas estaduais e federais sem se preocupar com a melhoria da qualidade do ensino e antes, ainda na escola, hoje, esse meu balde fora enchido por uma aluna que me confessou querer da vida o casamento e um trabalho em casa de família, no máximo e, por isso, ela não se importava com a nota 0,5 que tirara na prova de Língua Portuguesa onde só continha interpretação textual.
Essa planta carnívora só aumenta de tamanho. E quer devorar não somente a batata da perna. Quer nos devorar por inteiros.
Às vezes, surge uma “Malu” como um levante de auto-estima ou simplesmente alguém, que por obra e graça divina, se solidarizou com o nosso sofrimento. Isso é bom! É sinceramente bom! Mas não ameniza a dor que a planta tem nos causado diariamente, com um verdadeiro “pede pra sair” do governo, fazendo referência a fala do personagem capitão nascimento do filme Tropa de Elite. Esse mesmo governo que é a representação máxima de todo um povo. O mesmo povo que depende de nós para a educação básica ministrada e quase nunca aproveitada. Isso é ‘pirante’! E toda essa ‘piração’ me fez debulhar em lágrimas hoje, no trem, à tarde, voltando de mais uma jornada integral em sala de aula. Era só uma leitura descomprometida.Não esperava tanto dela. E é essa a surpresa que a leitura nos proporciona. Não esperar e mesmo assim receber.
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